quinta-feira, 8 de abril de 2010

A catarse


Do grego "kátharsis", significa purificação, purgação. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Em qualquer texto dramático, a catarse é essencial para promover a torcida e a identificação do público com os personagens.

Bruno (Thiago Lacerda) e Helena (Taís Araújo): personagens de "Viver a Vida"


Pensando nisso e me colocando no ponto de vista de espectador que assiste a novelas desde que me entendo por gente, tentei compreender e fazer alguma relação com o que falta em “Viver a Vida”, atual novela das oito global. Canso de ouvir comentários de que a novela não tem história, não tem trama alguma. Discordo. A novela tem tramas, sim. E são ótimas, cheias de ingredientes para um novelão: gêmeos que disputam mocinha, que fica tetraplégica; pai e filho que, sem saber, amam a mesma mulher... sem contar que tem personagens clássicos: mãe dominadora, mãe leoa, garota rica que vai viver na favela em nome do amor, mulherengos, esposas tradicionais tentadas a trair, enfim... em termos de sinopse, seria uma novela perfeita. E os personagens, ao contrário de muitas novelas atuais, não são meros arquétipos. Eles são riquíssimos e possuem uma psicologia muitíssimo bem definida. Esse, ao meu ver, é o ponto forte da obra de Manoel Carlos: os personagens têm vida, são de carne e osso, parecidos com qualquer um de nós. São eles que, geralmente, movem a trama, e não o contrário. Ou seja, idéias e bons personagens estão ali, mas a questão é que as expectativas são criadas e acabam sendo frustradas depois. Todo mundo é muito cool, muito civilizado. Tirando aquelas brigas chatas dos gêmeos vividos por Mateus Solano e as alfinetadas da Izabel (Adriana Birolli), aquela irmã mala que fala a verdade doa a quem doer, não há os chamados bas-fonds...e é disso que o público gosta. O BBB 10 foi o sucesso que foi porque tinha barracos diariamente.

Por exemplo, o caso da Renata (Bárbara Paz). Onde já se viu uma mulher que sofre de anorexia alcóolica com sérios problemas psicológicos aceitar numa boa que o namorado por quem é dependente afetivamente e completamente apaixonada, a abandone para ficar com uma tetraplégica? Por que ela não invadiu a casa de Luciana (Aline Moraes) para fazer o maior escândalo? Ao contrário: aceitou numa boa e até foi cumprimentar a “amiga” no dia do aniversário, contrariando a todas as expectativas criadas nos capítulos anteriores através de cenas que davam indícios de que essa revolta aconteceria a qualquer momento. Ou seja, pulou-se a parte do drama, não houve catarse, a personagem não se “purgou”. Nem Madre Teresa seria capaz de tamanha abnegação. Renata, quem diria, é um exemplo de maturidade e equilíbrio.

Outro exemplo: o encontro de Bruno (Thiago Lacerda) com o pai, Marcos (José Mayer). Era pra ser algo cheio de emoção, ressentimento, lágrimas e o que vimos foi um encontro frio, até meio constrangedor. E o que dizer dos envolvimentos amorosos de Betina e Carlos (Letícia Spiller e Carlos Casagrande) e Malu e Gustavo (Camila Morgado e Marcelo Airoldi)? Fazer um suspense e atrasar a ação faz parte do show. Mas não realizar nunca essa ação é tão frustrante quanto um coito interrompido.

Ou seja, as boas tramas existem. O que falta é realizá-las a contento. Em nenhum momento ouvi nas ruas alguém dizer: "hoje eu não posso perder a novela porque vai acontecer tal coisa". É isso que faz uma novela andar. Cadê a catarse que faz o Brasil parar? Enfim, Manoel Carlos não precisa provar nada pra ninguém. É um gênio e ainda tem estrada pra percorrer. Espero, sinceramente, que nessa reta final, Maneco empreste a “Viver a Vida” ao menos um pouquinho da emoção e de todas as viradas catárticas que conseguiu dar à fantástica “Por amor”, só pra citar uma de suas maravilhosas novelas.

Aprofundando o tema, continuei a pensar em algumas novelas antológicas e todas elas tinham esse momento de catarse, em que o público entra em comunhão com o personagem e se delicia com sua grande virada, com a expurgação de todos os seus dramas: o chamado acerto de contas. Elegi meus “momentos-catarse” favoritos:


- Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga – Raquel (Regina Duarte), depois de tanto sofrer nas mãos da filha Maria de Fátima (Glória Pires), que vende sua casa, o que a obrigou a começar do zero vendendo sanduiche na praia e ainda por cima fingia que não a conhecia e armou para que ela se separasse do homem que amava, Ivan (Antonio Fagundes), teve seu grande momento, invadindo o atelier onde a filha experimentava seu vestido de noiva e, aos gritos de “odeio você” rasgou toda a roupa da megera. A cena é forte e causa impacto até hoje. Mas foi o momento que todos esperavam, em que a heroína deixou de ser boazinha e expurgou seu sofrimento.

- Ti Ti Ti (1985), de Cassiano Gabus Mendes – Ariclenes (Luiz Gustavo), um verdadeiro perdedor na vida, após sofrer com o triunfo do arqui-inimigo André (Reginaldo Faria), que se tornou o famoso costureiro Jacques L’eclair, dá a volta por cima e retorna em grande estilo como Victor Valentim, costureiro espanhol que rouba todo o sucesso do rival.

- Água Viva (1980) e Celebridade (2003), ambas de Gilberto Braga – Após sofrerem traições por parte das vilãs que se faziam de amigas, Lígia e Maria Clara (Betty Faria e Malu Mader, respectivamente) dão uma merecida surra em suas rivais, Selma e Laura (Tamara Taxman e Claudia Abreu). Gilberto, curiosamente, usou o mesmo cenário para os dois embates: o banheiro de uma casa de shows.

- A próxima vítima (1995), de Sílvio de Abreu. Essa era uma catarse por capítulo, mas pra citar uma, a cena em que Marcelo (José wilker) descobre a infidelidade de Isabela (Claudia Ohana) e faz um corte em seu rosto com uma faca.

- O astro (1977), de Janete Clair. Cansado do preconceito e da ambição do pai rico Salomão Ayala (Dionísio Azevedo), Marcio (Tony Ramos) sai de casa sem nem mesmo levar a roupa do corpo, completamente nu.

Isso só pra citar alguns. E vocês, o que acham? Qual seu “momento-catarse” favorito?

16 comentários:

Vicente disse...

Parabéns, Vitor. Você foi preciso como um cirurgião em seus comentários. Como a grande maioria dos críticos não tem conseguido passar nem de longe... Muitos se julgam capazes de criticar uma obra de dramaturgia. E com a proliferação de blogs e sites pela internet, então, isso se tornou uma verdadeira Babel! O difícil é ter a capacidade de identificar a raiz do problema e ainda a sensatez e a humildade de perceber (e declarar) que nem tudo está perdido e que as qualidades também podem ser encontradas desde que se olhe com o olhar certo para o lugar certo. Afinal, ainda existe vida inteligente e capaz por trás de uma novela como "Viver a Vida". Alguém ousaria jogar a primeira pedra?

Rodrigo disse...

Parabéns, Vitor, você tá ficando muito bom nesse negócio de escrever!!! Um grande abraço do amigo, colega de turma e fã de carteirinha, Rodrigo Ribeiro.

Carlos Fernando disse...

É isso mesmo. Isso, isso, isso....
Falou muito bem: falta barraco.
É interessante que o contexto do barraco está presente e ele não acontece. Brochante!!!!!
Fico pensando e discordo de você sobre o porquê? Manoel Carlos está em momento "Zen". Tudo é lindo, tudo é perfeito e aí fica tudo morno. E você sabe que esse lance de ser morno é horrível. Nos gostamos de quente ou frio. É por isso que é preciso renovação, para que escritores como você tenha oportunidade de mostrar seu valor em rede nacional.
Que venha a "catarse". Que venha você!!!!

Elton Menezes Severo disse...

Sobre VaV... Eu concordo. Reclamo sempre da falta de história da trama. Mas, na verdade, o que faltou foi o autor realizar o desenvolvimento das tramas, como ele se prontificou na sinopse. Uma pena. A sensação que dá é que ele ficou com medo ou preguiça de ir a fundo com a história.

Sobre catarse... Acho antológicas as cenas de enfrentamento entre Susana Vieira e Renata Sorrah, em SENHORA DO DESTINO.

Walter disse...

Oi Vitin. Seu texto está perfeito. Até grandes momentos que poderiam ser a "catarse" de VaV foram extremamente mornos, pelo menos para mim. Mas existiram alguns, como o tapa dado na Thaís pela Lilia, a descoberta do Jorge que a Luciana estava com o Miguel... Mas e aí? Por que a novela não consegue me prender e nem a muita gente. Alem dos grandes momentos catarse falta algo mais no "dia-a-dia" de VaV.

TH disse...

Eu concordo com seus comentários sobre VaV. O fato de Maneco ser meu autor preferido não me impede de reconhecer que sinto mesmo falta de fôlego no desenvolvimento de suas tramas. Ele compensa com seus diálogos, excepcionais, os melhores da tv brasileira pra mim, no entanto é necessário se fazer alguma coisa em prol do andamento da trama, em busca de momentos-climax mais empolgantes e sobretudo, conflitos. Não gostava do BBB, mas fui obrigado a reconhecer que ali tinha muito mais elementos conflitantes e dramáticos de uma novela do que a própria Viver a Vida. A novela termina deixando, como Páginas da Vida, a sensação de "ainda ter coisa pra acontecer"...

Eddy disse...

Belíssimo texto, queridão. Bom, eu honestamente não sei como Viver a Vida ''se sustenta''. É a ausência total de todos os chavões dramatúrgicos (momento-catarse, ganchos, etc). O texto é primoroso (os diálogos do Maneco são ducacete) mas só isso não basta. As tramas não andam!

Walter de Azevedo disse...

Muito bo, Vitinho! Aliás, como sempre. Como comentei na nossa lista, acho que Viver a Vida é uma história que não foi contada. Não sei o que aconteceu com Maneco dessa vez. Nada que aconteça em Viver a Vida, quando acontece, consegue chamar a minha atenção. Fico com a impressão de que a novela está no ar apenas esperando a próxima ficar pronta. Quanto à catarse, adorei todos os citados, mas gostaria de colocar também o Diego (Marcos Frota) empurrando Isabela (Cláudia Ohana) pela escada em A Próxima Vítima e o discurso final de Jean Pierre (Edson Celulari) em Que Rei Sou Eu, que termina com um sonoro "E viva o Brasil!".

Duh Secco disse...

Certeiro em sua crítica, Vitinho. Disse tudo! O grande problema de Viver a Vida é exatamente esse. Além disso, a trama insiste em cenas batidas, em um cotidiano monótono com os inúmeros almoços e jantares, e a divulgação do tal blog da Lu. Quem pega a novela no meio do capítulo, se irrita facilmente e desiste!

Outra catarse que adoro: depois de muito sofrer nas mãos da gêmea má, Raquel, indo inclusive a julgamento por conta de um crime cometido por ela, a gêmea boa (até demais!) Ruth desfere um belo tapa na cara da vilã.

Eduardo José disse...

Pra mim hoje em dia não se assiste novelas por "catarse" mas por "osmose".

RÔ_drigo disse...

Muito bom Vitim,matou a PAU!Ui!!rss

Wesley disse...

O texto do Vitor foi excelente. Porém ele sabe que não gosto dessa novela... rsrs
E sim, Viver a Vida pode ter uma bela história. Mas o que adianta o autor tê-la e não usá-la como deveria? Um total desperdício e acho isso abominável. Alguém disse que o Maneco é preguiçoso e concordo. Suas tramas são o 'mais do mesmo' e desde Laços de Família ele não faz nada de novo. Isso não tira o valor desse autor que escreveu Baila Comigo, História de Amor, Por Amor e Laços de Família.
Viver a Vida e Páginas da Vida podem ter boas histórias, bons personagens, mas nenhuma possui desenvolvimento. Aquele chove não molha e aquela 'historinha de mulherzinha de família contando história da vovozinha e do chá que ela tomava' não me convencem mais.
Sobre as catárses, temos várias. Em Roque Santeiro, o "santo" em questão não está morto e reaparece. Capítulos depois, o Padre reúne a população de Asa Branca para revelar a mentira, mas ninguém acredita na história.
E em Louco Amor? Luiz Carlos solta os cachorros em Renata Dumont. Depois os inimigos se reunem para desmascará-la e revelar o seu verdadeiro nome: Agetilde Rocha.

Degustador disse...

Concordo com o Wesley, as novelas do Maneco posteriores a Laços de família foram/são insossas. Mas para ficar com uma ótima cena do autor, lembro o esporro homérico de Atílio (Antônio Fagundes) em Helena (Regina Duarte) em Por amor, ao descobrir a troca dos bebês.
E qualquer coisa de Odette Reutemann; o diálogo entre Solange (Lídia Brondi) e Maria de Fátima (Glória Pires) em "Vale Tudo".

aldeia disse...

Como eu acho que catarse está muito ligada à culpa, cito a cena em que é revelada a troca de bebês em Por amor.

A catarse coletiva que a cidade de Coroado tem qdo João Coragem resolve reconstruir a cidade do nada, depois de destruída.

Aquela briga quase coreografada das irmãs em Dancin Days envolvendo amor, ódio, ressentimento, admiração, inveja...tudo ali..rsss

pra mim Viver a vida tem uma cena muito boa em que a Helena consegue falar e pedir desculpas pra Luciana, já na casa amarela...parece que um elefante sai das costas da heroína...eu acho que é isso!

Fábio Leonardo disse...

Alô, Vitor!

Alguns momentos-catarse que mais me marcaram foram escritos pelo próprio Manoel Carlos. Helena batendo em Íris e a chamando de "judas" em "Laços de Família"; a surra de Marcos em Rachel, em "Mulheres Apaixonadas" e a briga entre Paulinha e Clara na mesma novela.

Gilberto Braga é rei no assunto. Uma das minhas prediletas de "Paraíso Tropical" é uma das menos comentadas. Não queria perder a novela no dia em que aconteceria a exposição das jóias do ébrio Evaldo no hotel de Antenor Cavalcante e, após a exposição, o anúncio de Paula sobre seu autor.

FABIO DIAS disse...

Que fantástico Vitor esse texto!
Li e aprendi um pouco mais com o Melão!

Show!
Parabéns

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