domingo, 31 de outubro de 2010

Blogueiro convidado: Fábio Leonardo Brito – memória cultural e telenovelas


 Mais um queridão entra para o rol dos colaboradores do melão, que já se espalham de norte a sul do país: este vem do Piauí.  Estudante de História e telemaníaco convicto, o jovem Fábio Leonardo Brito já deu provas de sua competência na escrita e de sua capacidade analítica em comunidades e listas de discussão das quais fazemos parte. Agora, esse futuro historiador nos dá a honra de publicar um belo texto aqui no melão em que ressalta a colaboração de nossas telenovelas para a memória cultural brasileira. Excelente e esclarecedor texto. Aproveitem!

TEIAS, TRAMAS E LEMBRANÇAS:
AS TELENOVELAS COMO LUGARES DE MEMÓRIA

Fábio Leonardo Brito

Odorico Paraguaçu cercado pelas inesquecíveis Irmãs Cajazeiras em "O bem amado"

“Eu lembro dessa novela!” Quantas vezes já não ouvimos ou falamos essa frase? Talvez uma das mais comuns em todo o Brasil. A grande verdade é que a televisão, e a telenovela em especial, é, desde seu surgimento, objeto das maiores paixões nacionais. Paixões, sim: e manifestas em suas duas formas, o amor e o ódio. Mesmo aqueles que não gostam de novelas admitem tê-las assistido, ou mesmo acompanhado assiduamente pelo menos uma vez. As novelas no Brasil, muito mais do que o cinema ou os livros, tornaram-se um veículo de comunicação eficiente. Ditaram moda, modos de falar, incitaram a participação política... As novelas construíram o Brasil, pois moldaram a maneira de pensar dos brasileiros.

Sou graduando em História e, como tal, sempre quis (e pretendo) trabalhar a teledramaturgia como um elemento de análise a partir dos novos conceitos da minha ciência. Nos meus estudos, dei de cara com Pierre Nora, um de nossos teóricos, que trabalha a memória como ponto de partida para o estudo da história. Segundo ele, os monumentos (sejam eles materiais ou imateriais) são “lugares de memória”, elementos que incitam a lembrança. São monturos para serem queimados pelo historiador, que problematiza o monumento.

E pensei: porque não fazer isso com a dramaturgia? Se a Ilíada pode ser usada para analisar os usos e costumes da Grécia Antiga, e Lancelot os a França medieval, por que não Pecado Capital e Vale Tudo os do Brasil contemporâneo? Como historiador, é minha obrigação problematizar sobre esse tema, ainda carente de pesquisas que lhe façam justiça.

Luiz Gustavo, no papel título de "Beto Rockfeller" (1968) e Bete Mendes.
As novelas, como espaço de memória, permeiam a vida dos brasileiros e são espaços de identificação com este desde a estreia de Beto Rockfeller, em 1968, na Tupi. Até então, as novelas eram histórias no bom e velho estilo capa-e-espada, passadas em países distantes. O estilo, marcado pela direção de dramaturgia de Glória Magadan na Globo, perdurou até o fenômeno causado pela trama. Depois dela, nunca mais a dramaturgia seria a mesma.

A novela serve como um espaço para que as pessoas se identifiquem. Para Carlo Ginzburg, historiador italiano, autor de O fio e os rastros, “um escritor que inventa uma história, uma narração imaginária que tem como protagonistas seres humanos, deve representar personagens baseados nos usos e costumes da época em que viveram: do contrário eles não serão críveis” (p. 82). Lembro de uma entrevista em que Janete Clair surpreendeu-se quando descobriu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek assistia à sua novela no ar, Selva de Pedra, que dera, dias antes de tal revelação, 100% de Ibope na Grande São Paulo.

Do porteiro ao presidente da República, as novelas representam o dia-a-dia da população. Não, não falo apenas das cotidianas crônicas de classe média de Manoel Carlos. Qualquer história sobre humanos representa o que poderia ter acontecido: nisso são reais. Do Brasil que não perde a oportunidade de se dar bem, mesmo que, para isso, tenha que passar por cima dos outros, ao extremo símbolo da honestidade, do batalhador tupiniquim que mata um leão por dia ao político que dá uma banana pro Brasil, e foge do país após roubar milhões. Todos estivemos representados em Vale Tudo. Dos pudicos nordestinos, que escondem debaixo do tapete suas taras, àqueles que revelam seu fogo e seus desejos interiores: também todos estávamos nos tipos marcantes de Tieta. E quem não viu sua aldeia representada nos múltiplos Brasis contidos em Sucupira ou Asa Branca?

A memória nacional permanece viva nas novelas. A partir delas, lembramos de momentos marcantes de nosso país, do cotidiano de várias épocas, de seus hábitos, vestimentas e falares. E é pela televisão que o homem, através da fantasia, se olha no espelho: conclui que sua vida reflete-se e é refletida na arte que cria. Nas teias ilusórias propostas pelos autores, nas tramas que se interligam com escandalosas coincidências, ganchos e viradas, nos vemos, melhorados ou piorados, de forma clara ou estigmatizada. Mas somos nós, nossas qualidades e nossos defeitos. Traduzimos nossa sociedade e mostramos nossa cara.
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Fábio Leonardo Brito é autor do interesantíssimo blog Super CultVale muito a pena a visita!
                                                                                                                                                         

8 comentários:

Fábio Leonardo disse...

Escrever pro Melão é uma honra! Um dos melhores espaços da Internet para se discutir teledramaturgia em altíssimo nível. Vitor sempre excelente em suas colocações. Um prazer estar por aqui, garoto! Abraços!

Duh disse...

Grande texto! Abordagem interessante e leitura gostosa. Tá de parabéns, Fábio! E parabéns também ao Vitor por ter aberto espaço aqui no Melão pra esse grande rapaz!

Abraços, queridos!

Ma Luiza Ocampo disse...

Fábio, em 1996 defendi minha tese intitulada " A Telenovela como Documento de Memória Social", no curso de mestrado em Memória Social da UNI-RIO. Dissertei sobre exatamente o tema que você aborda no seu post e utilizei a novela "Renascer" como o objeto de pesquisa. A tese foi muito bem avaliada. Por isso, gostei muito do seu post e, se quiser, podemos "trocar muitas figurinhas" sobre o assunto. Parabéns.

TH disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
TH disse...

Bobo quem diz que novela não teve ter outra função senão a de meramente "entreter'. Novelas são registros reais de determinadas épocas, há verdadeiras análises comportamentais por trás dos folhetins declarados. Girias, expressões, marcos históricos, comentários dos personagens sobre demais acontecimentos. As vezes um singelo diálogo traz uma infinidade de curiosidades e contetualizações daquele periodo.
É inadmissivel que não se importem tanto com o fato da telenovela trazer tanta cultura e pontos de discussões..
Perfeito texto do Fabio - que, alias, é o mais indicado pro tema! :)

Leonardo Távora disse...

Estou abismado com esse texto. Incrivelmente, ele reflete meu proprio pensamento sobre como uma novela influencia na vida de uma sociedade, e vice-versa, pois é necessário que nos vejamos inseridos naquela história de algum modo, para podermos refletir, e melhorar em nossas relações interpessoais. Não sou fã de personagens estigmatizados, pois eu prefiro inclusive criar tipos bastante humanos, que não são nem bonzinhos, nem malvadões do nada. Tudo tem um porque, e uma personagem só reflete quem a assiste quando se torna tão humana quanto é o seu espectador.

INCRIVEL!! Está de parabéns o Fábio que nos trouxe essa reflexão, e o Vitor, que a publicou aqui. Adorei!!

Ivan Marcio disse...

Uau! q texto!!!

RÔ_drigo disse...

Fábião mandou bem;D

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